Letícia Augustin aponta tempo de relacionamentos líquidos e que atrizes têm talento questionado em razão da beleza

Falando sobre o amor e suas mais variadas formas, a peça e a atriz, revelam que o tempo atual é de relacionamentos líquidos, mas há e haverá sempre a esperança de um amor de verdade “nem sempre o amor da sua vida é um amor pra sua vida”, diz. Entre tantas paixões, Letícia trata também sobre aquele que a moveu do Mato Grosso para São Paulo, e depois, para o Rio. Se posicionando contra o preconceito às mulheres e contra a pressão dos corpos que sofreu, mesmo sendo magra: “Cheguei a passar por transtornos alimentares. Nas artes cênicas também passei por situações, ainda adolescente quando era alvo de bullying, quando não estava bem disposta para gravar, por não estar bem”

Todo início traz em si a beleza da dúvida, do desafio… A poesia que reside no começo, no nascimento. Foi esse o assunto que norteou a nossa entrevista com Letícia Augustin. A atriz está à frente de “O Amor Passou por aqui…“, ao lado de André Luiz Frambach, em sua primeira peça profissional. Porém, ainda assim, não foi poupada dos preconceitos dos quais as mulheres – especialmente as bonitas – são alvo. “É algo do qual eu sempre tive de lutar. Desde que comecei a fazer cursos dentro da arte que eu já sofria com o julgamento. Não só pela beleza, mas por ser uma pessoa privilegiada. O que me motiva é colocar a minha cara à tapa e de saber que posso convencer como atriz, e de que não sou só um rostinho bonito, de que tenho algo mais, que tenho talento. A quem quer me limitar a esse estigma, eu provo de que sou algo mais e de que vou além”.

Como se essa questão não bastasse, ela também foi cobrada em razão de sua forma física. Numa da primeiras manifestações artísticas nas quais se envolveu, o balé, foi excessivamente apontada por seu corpo, o que gerou algumas cicatrizes: “No balé, eu recebi cobranças a estar com um corpo de bailarina e não passava nos exames em razão de não ter o corpo “ideal”. Passei por transtornos alimentares, já que não era psicologicamente preparada para isso”.

Além deste trabalho, Letícia poderá ser vista em dois filmes: “Sexo e Destino“, dirigido por Márcio Trigo e baseado no livro homônimo de Chico Xavier (1910-2002) e do espírito André Luiz e no longa “Festa de Rodeio de Barretos“. O fato de estar fazendo um filme adaptado da obra de Chico Xavier remonta a uma questão familiar. Oriunda de um lar espírita, a artista acredita que “religiosidade é uma coisa ampla. Não me rotulo como religiosa, mas acredito em reencarnação”.

Nas artes cênicas também passei por situações, ainda adolescente quando era alvo de bullying, quando não estava bem disposta para gravar, por não estar bem – Letícia Augustin

Além da terapia, a atriz dedicou-se, inicialmente, à carreira acadêmica e na cadeira de Nutrição, forma de contrapor a instabilidade da profissão de atriz e os distúrbios alimentares. “Foi assim que comecei a me curar, a migrar para um estilo mais saudável e forma de estar cuidando do meu corpo e como reforço de saúde mental”.

Letícia Augustin co-estrela “O Amor Passou por Aqui”, junto com André Luiz Frambach (Foto: Divulgação)

FRUTO DA TERRA

Dentre as singularidades do Centro-Oeste, há, claro, o Pantanal, a capital do país, um céu profundo. Mas o fruto da região é pequi. Único, nativo, personalíssimo. Tamanha personalidade talvez se estenda à Letícia Augustin. Nascida “no” Goiás e criada em Rondonópolis (MT). “Vivi a vida inteira em Rondonópolis e voltei para Goiânia para fazer Nutrição”. Porém, por sua vontade era fazer Artes Cênicas. O curso de Graduação para nutricionistas veio por conta de uma resistência da família a ela investir assim, de cara, na profissão de atriz. Porém, quando ela estava na fase final da Graduação, surgiu a oportunidade de mudar para São Paulo. A sua irmã estava se formando em direção cinematográfica. Foi a chance de ouro para ela mudar para a capital paulista e ingressar num curso de formação de atores. “Assim que me formei, comecei a produzir essa peça e vim pro Rio”. Inicialmente, a montagem de “O Amor Passou por Aqui” era com Felipe Roque e Aline Campos (ex-Aline Riscado).

A goiana é uma “carioca recente”. Mudou há pouco mais de um mês para a capital fluminense e prefere esta cidade quando comparada a São Paulo. “O Rio tem  uma outra atmosfera, mais leve e descontraída, ainda que em São Paulo as coisas aconteçam mais. O Rio é mais acolhedor e essa diferença se mostrou grande. Como eu passei a vida no interior, lá as pessoas se conhecem mais, se acolhem mais. Eu acabei me conectado mais com o Rio que com São Paulo”.

Fazendo seu primeiro trabalho profissional, Letícia diz sonhar com outras ferramentas e outros trabalhos. “Quero investir mais no audiovisual, fazer cinema, streaming, explorar outras habilidades. O meu foco sempre foi o audiovisual. Ainda que eu goste de teatro. Começar no teatro é estratégico para que o ator crie bagagem. O teatro estimula a humildade, já que dá muita mão de obra”.

Letícia Augustin quer investir no audiovisual, além do teatro (Foto: Divulgação)

O AMOR

O mote da montagem protagonizada por Letícia Augustin é o amor. Perguntamos ela como o enxerga, em tempos de relacionamentos líquidos, como os atuais. “A geração atual observa o amor de modos diferentes e de forma cada vez menos sólida, onde tudo evapora rápido. A meu ver essa peça traz a esperança. Todo mundo viveu um amor  de idas e vindas. Minha personagem tem algo mais enérgico, o personagem do André mergulha no amor,  se joga. Essa fusão dos dois faz com que eles se permitam mais. As pessoas perdem muito por causa da liquidez dos relacionamentos”. Ainda segundo a atriz, há um espelhamento entre ela e a personagem “trabalhei algumas barreiras, frustrações que criei em mim e amores bons e ruins que vivi e relações tóxicas. A personagem me ensinou a dar chance ao amor”.

Quando encerra a conversa, Letícia diz que a música que a define é “The Climb“, da Miley Cirus. “[Através dessa música] passei a observar que o fim de uma montanha não quer dizer que não haverá outra. Acho que o segredo é aproveitar a subida e se preparar para outra.  A vida é uma escalada sem fim. Eu gosto dos ensinamentos que vida me dá. Sempre quero mais e estou disponivel para aprender”.

Letícia Augustin cita o filósofo Baumann e acredita que os tempos atuais são de relacionamentos líquidos (Foto: Divulgação)

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