A Conferência das Partes começou esta semana, e a moda, setor estimado como responsável por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, além de inúmeros impactos sociais e ambientais, caminha para avançar em sua agenda climática. Enquanto as negociações e discussões acontecem nos espaços oficiais da conferência, outras ativações se espalham pela cidade, reforçando principalmente o papel da cultura como ferramenta de engajamento e transformação social.
A moda comunica, e as roupas contam histórias. Assim, a diversidade cultural de uma conferência global desperta a curiosidade sobre os símbolos e processos por trás de cada peça. Ter a Amazônia como sede reforça a importância do diálogo entre o vestir e os territórios. “É uma indústria que mostra caminhos possíveis para impactar positivamente as comunidades locais aqui da Amazônia brasileira, porque, além da floresta viva, abaixo das copas existem pessoas vivendo em harmonia com ela, manejando-a e detentoras de tecnologias milenares, que sabem muito mais do que quem está fora dela”, diz o estilista indígena Sioduhi.
A bioeconomia é um dos caminhos mais promissores para propor alternativas mais sustentáveis aos modelos de negócios vigentes, porém precisa estar atrelada ao desenvolvimento social de cada território. Nesse contexto, a moda tem potencial para ser uma grande aliada.
Com este propósito, o evento “Vestir Amazônia, Reflorestar o Clima”, como parte das ativações paralelas da COP30, promoveu rodas de conversa e um desfile-manifesto com direção criativa de Sioduhi e assistência de produção e stylist de Naisha Cardoso. Realizado pela Assobio e Riachuelo, com produção do Brasil Eco Fashion Week, o desfile reuniu peças de marcas amazônicas com colaborações da Riachuelo e da Veja Shoes, além da participação de nomes referência em sustentabilidade no Brasil, como Flávia Aranha, Catarina Mina, Day Molina e o próprio Sioduhi.
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“Vestir a Amazônia é propor outra moda possível que refloreste os corpos, os territórios e a imaginação. A floresta é fonte de beleza, saber, tecnologia, cuidado e design. Este desfile é um ato de futuro”, afirma Tainah Fagundes, empreendedora da Da Tribu e uma das lideranças do evento.
Para além deste encontro, a moda também vem marcando presença em painéis de discussão em diferentes espaços da conferência, inclusive na Zona Azul, onde acontecem as negociações oficiais. Um dos destaques foi o debate sobre a descarbonização do setor têxtil no Sul Global, realizado no pavilhão do Paquistão, com participação de representantes brasileiros.
“A circularidade foi um tema frequente nos painéis, inclusive com a assinatura simbólica entre a ABIT e a plataforma Recircula, do Governo Federal, que promete trazer mais rastreabilidade para o setor. Um dos chamados mais importantes que ouvimos foi para que a indústria da moda consiga fazer mudanças tecnológicas e de arranjos produtivos gerando inclusão, renda e trabalho digno, e não acirrando as desigualdades históricas que já atingem trabalhadoras da costura e da coleta de resíduos. Essa é a essência de uma transição verdadeiramente justa “, diz Raquel Chamis, cofundadora da Cora Design.
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De acordo com o recém-lançado Índice de Transparência da Moda – Edição Clima, do Instituto Fashion Revolution Brasil, apenas 22 marcas que operam no Brasil e divulgam suas emissões, emitem o equivalente a Portugal inteiro. Embora a verdadeira escala do problema ainda seja desconhecida, esse dado reforça o peso significativo do setor para a crise climática.
Porém, a urgência do debate climático precisa ir além da descarbonização e da circularidade. O relatório também destaca que uma transição justa de fato exige colocar as vozes e a liderança das comunidades no centro da construção de alternativas energéticas inclusivas e emancipadoras e que rompam com a lógica extrativista e tenham a justiça climática como princípio fundamental.
“Gerar renda para as mulheres dentro do território, por meio da cultura, é a forma de manter essas mulheres no território e, assim, manter a floresta em pé, pois são elas que asseguram a língua, a alimentação, a roça, tudo. A floresta em pé depende dessas mulheres, geradoras de vida.” diz Amanda Santana, empreendedora da Tucum.
Durante os próximos dias de conferência haverá painéis e eventos trazendo a moda como pauta, mas a presença ainda é tímida. Para Laura Madalosso, cofundadora da Cora Design: “Como consultoria especializada no setor têxtil e de moda, sentimos falta de uma presença mais articulada e estratégica do setor na COP30. Essa cadeia de valor ocupa um espaço fundamental na transição justa do país, com capacidade real de influenciar outras áreas da economia”.
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A conferência tem data para acabar, mas a emergência climática não. Por isso, o setor deve seguir estreitando diálogos e construindo estratégias mais robustas para avançar nessa agenda, e até liderar soluções sistêmicas que possam contribuir com outros setores e, sobretudo, beneficiar quem faz parte de sua cadeia produtiva.




