A noite caiu em Madri, mas o calor não deu trégua. Um vestido de tafetá volumoso preto cruzou a passarela cor-de-rosa de 450 metros montada pela Carolina Herrera em um dos marcos da capital espanhola, a Plaza Mayor. Era o primeiro de 77 looks inspirados na Espanha e conectados ao legado da marca que o diretor criativo Wes Gordon apresentaria naquela noite. Na sequência, vieram mangas bufantes, cinturas marcadas, babados, rendas, estampas florais e uma explosão de cores para as mulheres que se vestem sem medo do maximalismo hiperfeminino. “Se todas as mulheres estiverem vestindo cinza, a mulher Carolina Herrera estará de pink”, disse Gordon certa vez em entrevista à Vogue Brasil. Em suas mãos, a opulência da marca assumiu uma faceta mais leve, divertida e pé no chão, mas sem perder a essência glamorosa.
Não foi à toa que Gordon decidiu mostrar sua nova leva de looks exuberantes na Espanha, em vez de Nova York, cidade que sedia os desfiles de ready-to-wear da maison desde sua fundação. A grife começou a realizar apresentações fora dos Estados Unidos em 2023, quando desfilou sua coleção cruise no Rio de Janeiro. No ano seguinte, elegeu o México como destino. “Eu me apaixonei pela ideia de fazer desfiles em destinos diferentes e sabia que queria repetir esse formato”, me conta no backstage em Madri. “Nunca apresentei na Europa antes e sou completamente apaixonado por Madri. Foi um sonho estar aqui esta noite”, completou. A Espanha, além de tudo, é o país de sede e origem do Puig, grupo que adquiriu a Carolina Herrera em 1995 e também detém a Dries Van Noten, a Jean Paul Gaultier, a Charlotte Tilbury e a Rabanne, entre outras marcas.
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Além de receber o evento, o país também serviu de fonte de inspiração. Gordon cita o Século de Ouro espanhol, período de intensa produção artística entre os séculos 16 e 17, como uma das referências da coleção. Outra foi a Movida Madrileña, movimento contracultural de meados da década de 1980, no período de transição da Europa pós-franquista, que teve Pedro Almodóvar – um dos convidados do evento – como adepto no início da carreira. “Essa combinação de Velázquez com a Madri oitentista é muito Herrera”, disse. Mulheres como Paloma Picasso e Cayetana Fitz-James Stuart (Duquesa de Alba entre 1955 e 2014), que para Gordon representam uma mistura de drama e modernidade, também serviram como pontos de partida. O jantar de boas-vindas, na véspera do desfile, aconteceu justamente no Palácio de Liria, residência da Casa de Alba, que abriga preciosidades como uma primeira edição de Dom Quixote (1605), obras de Goya e uma mesa de trabalho que pertenceu a Napoleão III.
Assim como no desfile do México, Gordon voltou a colaborar com estilistas e artesãos locais para desenvolver peças especiais para a coleção. Desta vez, convidou o ateliê Seseña para criar capas; a Levens, para desenvolver joias de vidro; a Andrés-Gallardo, para produzir cravos de porcelana; e as grifes Sybilla e Palomo Spain para colaborar em algumas roupas. As flores, parte importante do vocabulário da casa, estavam presentes em bordados, estampas e jacquards. O diretor criativo escolheu, desta vez, espécies tipicamente espanholas: rosas, cravos e violetas. Leques de madeira feitos à mão pelo ateliê Ferran Abanicos, fundado em 1942 e atualmente mantido pelo trabalho de três mulheres, foram oferecidos aos convidados.
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A grife aproveitou a ocasião para apresentar sua mais nova fragrância, La Bomba, batizada a partir de um apelido dado à Sra. Herrera por Diana Vreeland (1903–1989), uma das mais lendárias editoras de moda da história. “Algumas pessoas iluminam um ambiente ao entrar, e minha mãe é uma delas”, diz Carolina Herrera de Báez, diretora de beleza e fragrâncias da marca e filha da fundadora. “Não porque ela tente, mas porque há algo nela, uma presença natural que faz você olhar duas vezes. Diana começou a chamá-la de ‘La Bomba’, um apelido que nasceu como homenagem ao carisma que ela carrega naturalmente”, completa.
Mesmo que Gordon e Carolina Jr. tenham assumido há tempos as rédeas da marca e inserido um novo ponto de vista para mantê-la atual, muitas referências à fundadora asseguram a força de seu legado: a alegria, as cores, os poás, as camisas brancas, as mangas bufantes e as cinturas marcadas – mas, acima de tudo, a elegância como estado de espírito. “Elegância é, antes de qualquer coisa, bondade – para você e para os outros. É sobre se orgulhar do que você faz e de como faz”, disse Gordon. O perfeito sucessor.




